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Ética Empresarial
Embora remotamente o movimento ético possa ter origens nas transformações verificadas no tecido empresarial no início do sec. XX com a aparição das grandes empresas distintas das empresas familiares cuja organização foi separando a direcção do proprietário, dando origem a uma recente carreira de gestores profissionais, é nos anos 50, e em consequência destas transformações, que se assiste a uma crescente reflexão que tem como objecto a actuação e gestão da grandes empresas, sobretudo sobre os resultados sociais provocados pela generalização da economia liberal, entre outros aspectos. Nos anos 60 este movimento começa a abordar as consequências ecológicas do desenvolvimento industrial assim como o consumismo como estilo de vida. Sendo a década de 70 importante na evolução deste movimento foi, no entanto, nos anos 80 que a ética empresarial se consolidou, enquanto disciplina dotada de alguma autonomia: o surgimento de revistas da especialidade e de centros de investigação em ética empresarial acontece no início dessa década e tem a sua origem nos Estados Unidos, estendendo-se à Europa a partir daí.
Uma grande diversidade de assuntos merecem a análise da ética empresarial como a gestão ambiental, a gestão de pessoal, as práticas de marketing, a informação comercial privilegiada, o assédio sexual, a protecção da privacidade no espaço de trabalho ou mesmo a ética da economia de mercado.
Um aspecto determinante na construção da ética empresarial foi o facto de a estrutura empresarial começar a ser entendida num outro prisma: ultrapassou-se gradualmente a perspectiva que via a empresa como tendo como única obrigação a geração do máximo lucro para os seus proprietários ou accionistas, para uma outra que entende que a empresa tem responsabilidades específicas para com outros grupos mais directamente envolvidos na sua dinâmica, como é o caso dos seus trabalhadores, clientes, fornecedores e mesmo a comunidade local da qual a mesma está implementada. Esta nova perspectiva designa-se Responsabilidade Social das Empresas (RSE). Existe uma grande diversidade de interpretações da RSE pelos diferentes analistas, tendo diferentes posturas sobre o seu alcance mediante visões mais restritas ou mais alargadas, conjugando a sua abrangência com os deveres que são atribuídos ao Estado. Podemos, no entanto, aceitar que a ideia central da RSE á a de que a empresa não pode permanecer alheia aos impactos sociais e ecológicos da sua actividade no ambiente humano e natural que a envolve, devendo conciliar tais preocupações com uma finalidade incontornável do seu carácter: a obtenção de lucro.
Relacionada com a RSE está a teoria dos agentes sociais (stakeholders). Esta teoria ultrapassa a ideia de que só existe um interesse dominante na empresa, o dos accionistas, assim como a opinião de que o único objectivo da empresa é a obtenção do maior lucro possível, introduzindo a noção dos vários agentes sociais. São deste modo repensadas as prioridades das empresas, introduzindo-se valores éticos no processo de decisão. Os agentes sociais poderão, por sua vez, ser entendidos de um modo mais restrito, como os empregados, os accionistas, os clientes, os fornecedores, os financiadores e a comunidade local, ou vistos de um modo mais amplo abrangendo grupos de interesse público, associações de comércio, governo local, organizações internacionais e sociedade em geral.
A ética empresarial deixa, portanto, de ser um espaço fechado e exclusivo do contexto empresarial mas um prolongamento da ética e dos valores presentes na sociedade, a que deve dar correcta expressão na sua actividade.
Bibliografia:
JESUS, Maria Margarida Nascimento – Ética y Actividad Empresarial, Cultura y Valores Éticos en las Empresas Algarveñas. Tese de Doutoramento, Universidade de Huelva, 2001.
NUNES, Cristina Brandão – A Ética Empresarial e os Fundos Socialmente Responsáveis. Porto, Vida Económica, 2004.